PINHEIROS
Ele passa despercebido para aqueles que, como eu, moram do lado de cá do Tietê.
Confesso que, mesmo sendo uma figura importante no cenário paulistano, nunca havia chamado minha atenção. Minha preocupação maior era com seu irmão, o Tietê, mais presente na minha vida.
Contudo, hoje, ele fez parte da minha vida, ou melhor dizendo, eu tomei parte da vida dele. Tudo aconteceu na viagem de trem Osasco- Jurubatuba, a linha de trem urbano que corre às suas margens.
Ao entrar naquele vagão estilo Primeiro Mundo, com ar condicionado, música ambiente e todos acomodados nos assentos, deparei-me com a figura que corta toda a Cidade e agoniza, como se a cada minuto suspirasse para se manter vivo, preenchendo o típico ecossistema de Terceiro Mundo.
A sua figura intrigou-me. Um rio poluído, de água suja e fétida cercado por uma paisagem quase bucólica dentro da Cidade, à beira da Avenida frenética e cinza. Diversamente da rispidez do seu irmão que parece não se importar com o triste destino que lhe foi traçado, o Pinheiros pareceu-me chorar, inconformado com sua sina.
Incrível como a natureza à sua volta parece a todo instante sussurar-lhe, dando forças para que se mantenha vivo. Longos trechos de relva verde-limão preenchem as suas margens, de onde florescem arbustos, árvores, gerânios. Vez ou outra não é raro vislumbrar uma cegonha, uma gaivota nas suas águas que tentam sobreviver a todo custo. Do alto da plataforma suspensa do metrô eu pude ver uma anta ou uma paca (não sei - para uma pessoa que passa a vida toda na selva de pedra, distinguir entre uma anta e uma paca é o mesmo que responder à pergunta que vale um milhão de reais).
Esse mistério do rio triste e sua luta para sobreviver me fez pensar e observar um cenário desconhecido. Observei por longos minutos, como uma criança que deseja conhecer o porque das coisas.
Apesar da sua situação, o rio ainda guarda poesia, como se espera de todos os rios. Mesmo doente, ele mantém seu encanto!!!
Estranho como eu nunca tinha percebido antes!!!!!